São Gonçalo: o estrago que a esquerda fez e o conserto que a direita ergue sobre escombros
O clientelismo de esquerda deixou escombros. A direita conserta, sem cofre farto e sem desculpa.

22/07/2026 às 12:13
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Gonçalense, contigo a conversa dispensa rodeio, porque tu és o menos iludível dos fluminenses. Tu acordas às quatro da manhã. Tu conheces cada buraco que a chuva abre e cada esquina onde o poder público sumiu. A ti nunca deram vitrine, orla tratada, museu de grife ou manchete de cidade-modelo. Deram-te discurso. Décadas de discurso social, proferido por gente que jamais desceu do palanque para calçar uma rua tua. Façamos, pois, o inventário: o que te tiraram, quem te tirou e o que, enfim, começou a ser devolvido.
O estrago: como se desmonta uma potência em nome do povo
É preciso lembrar, sobretudo aos mais jovens: São Gonçalo já foi potência. Manchester Fluminense, chamavam, e não era força de expressão: fábricas, portos de cabotagem, ferrovia cortando a cidade, emprego industrial em escala. Essa cidade existiu. E foi desmontada, peça por peça, pelo pacote completo do estatismo clientelista.
A hegemonia trabalhista que dominou o estado e a região por décadas, com suas máquinas partidárias, seus caciques e suas herdeiras populistas, aplicou aqui a fórmula clássica: transformar pobreza em clientela e clientela em voto. Em vez de título de propriedade, o favor. Em vez de emprego, o apadrinhamento. Em vez de infraestrutura, a cesta na véspera da eleição. O trabalhador gonçalense, o mesmo que sustentava a economia da metrópole com sua mão de obra, virou personagem de retórica alheia e cliente de despachante público. A ferrovia que era a espinha dorsal da cidade agonizou e morreu diante de governos estaduais que falavam do povo em cada comício; o leito virou mato, ocupação e entulho, símbolo perfeito de uma doutrina que prefere o pobre dependente ao cidadão próspero, porque cidadão próspero não precisa de padrinho.
E houve o estrago maior, o que se paga em sangue: a doutrina da segurança complacente. A tese de que policiar é oprimir, cultivada em gabinete por quem morava longe daqui, entregou os bairros gonçalenses ao poder paralelo em sua dupla versão, tráfico e milícia, que o morador conhece pelo nome das ruas onde manda cada um. Não foi acidente, foi consequência: onde o Estado se retira por convicção ideológica, alguém armado ocupa o vácuo e passa a cobrar o aluguel. Quem passou décadas teorizando que ordem é autoritarismo entregou o oprimido ao verdadeiro opressor. Não há no estado prova mais dolorosa dessa equação do que São Gonçalo.
O saldo dessa era está documentado na memória de qualquer família daqui: prefeitura sucateada, servidor sem contracheque garantido, esgoto correndo aberto para a Baía por um monopólio estatal de saneamento que tratava a cidade como fim de linha, saúde de corredor, escola sem padrão, e uma cidade inteira ensinada, geração após geração, a esperar tudo de um poder público que nunca chegava. Esse foi o legado. Convém dar-lhe o nome e o endereço ideológico, porque estrago sem autoria vira fatalidade, e fatalidade não se cobra nas urnas.
O conserto: o que a direita encontrou e o que já mudou
A cidade que a atual gestão de direita recebeu era, na definição mais precisa possível, uma cidade devastada: caixa comprometido, cidade suja, esgotos entupidos, mato tomando espaço público e, por cima de tudo, uma pandemia mundial no primeiro dia de mandato. Vale registrar o primeiro gesto, porque gesto revela doutrina: diante da crise, o Executivo abriu mão de reajuste salarial próprio e começou o governo com mutirão de limpeza, poda e desobstrução de rede, o tipo de trabalho sem fita de inauguração que o populismo despreza e o gestor sério prioriza.
De lá para cá, o método tem sido o oposto do que a cidade conhecia, e os resultados são visíveis a olho nu. Ordem pública como carro-chefe: ocupação permanente do poder público nos centros comerciais, a começar por Alcântara, com ordenamento do espaço, apoio ao lojista e presença ostensiva na fórmula que o moralismo de anfiteatro sempre condenou e que o comerciante aprova com o único voto que não mente, a porta aberta. Infraestrutura como obsessão: programas contínuos de drenagem, macrodrenagem, pavimentação, calçamento e iluminação de LED transformando bairros inteiros que nunca tinham visto uma máquina da prefeitura trabalhar. Saúde descentralizada, com clínicas regionais sendo equipadas para que o morador não precise cruzar a cidade por um exame. Creches em horário integral, que são a política social que de fato emancipa, porque devolvem à mãe trabalhadora o direito de trabalhar.
E, no plano que o município sozinho não alcança, a gestão fez o que o dogmatismo jamais faria: buscou parceria com todos os níveis de governo e com o capital privado, sem preconceito ideológico. O saneamento, entregue à iniciativa privada por concessão depois de décadas de falência estatal, começou a produzir o que o monopólio nunca produziu: esgoto saindo da Baía e indo para estação de tratamento, praias da cidade em recuperação visível, obra correndo em bairro que esperava água regular desde sempre. Mudou o modelo, mudou o resultado. Era o modelo, portanto, o problema. Sempre foi.
As dificuldades: a honestidade que a propaganda não pratica
Elogio sem ressalva é assessoria de imprensa, a forma mais barata de mentira. Digamos, portanto, o que falta, e falta muito.
O crime organizado segue entranhado, porque quarenta anos de vácuo não se revertem em poucos, e porque o enfrentamento de facção e milícia é guerra de estado e de União, não de guarda municipal. A receita própria do município é uma fração da que gozam os vizinhos ricos, o que torna cada obra uma operação de engenharia financeira à base de parceria e emenda, com a fragilidade que isso implica: o conserto de São Gonçalo ainda depende demais da boa vontade de terceiros e de menos de uma economia local pujante que gere receita própria. A informalidade fundiária segue oceânica, e povo sem escritura é povo sem crédito, sem herança segura e refém de quem cobra proteção. A regularização em massa, a mais revolucionária das políticas conservadoras, engatinha diante do tamanho do passivo. E a cidade segue devendo a si mesma a diversificação econômica que a reconecte à vocação industrial e logística que a esquerda deixou morrer.
Que ninguém se engane, portanto: São Gonçalo não está consertada. Está em conserto, que é coisa diferente e, precisamente por isso, mais crível. Cidade destruída em cinquenta anos não renasce em poucos; renasce quando muda o método, e o método mudou. O caminho adiante é o mesmo que trouxe os primeiros resultados: ordem na rua, título no cartório, contrato na obra e liberdade no balcão. Menos padrinho, mais alvará. Menos cesta na véspera, mais carteira assinada. Menos discurso sobre o povo, mais respeito por ele.
A esquerda teve décadas, teve o estado, teve a retórica e teve o teu voto, gonçalense, e te devolveu clientela, abandono e medo. A direita tem, aqui, a sua prova dos nove diária, executada sem cofre farto, sem imprensa amiga e sem direito a desculpa, porque quem promete consertar não pode reclamar do tamanho do estrago que veio denunciando. Até aqui, pela primeira vez em memória viva, a seta aponta para cima. Cabe ao gonçalense o que sempre lhe coube e nunca lhe reconheceram: julgar pelo resultado, com a régua de quem acorda às quatro da manhã e não tem tempo a perder com quem fala bonito e entrega nada.
Artigo de opinião da série "Cartas ao Triângulo".
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